Fábio e Daniel

keyboard-621830

06/01/16

Casal: Fábio (34 anos) e Daniel (35 anos)

Depoimento do Fábio:

“Daqui a duas semanas faremos 9 anos de relacionamento. Quando se pensa em uma relação homossexual, logo se imagina uma vida de promiscuidade. Até hoje, quando vamos fazer doação de sangue, se você se diz homossexual ou se você, mesmo sendo heterossexual, tiver mais de dois parceiros ao ano, é considerado um grupo de risco e sua doação é negada!

Ledo engado. Mas não estamos aqui para falar de problemas e sim de como é possível uma relação durar tanto tempo.

Nos conhecemos numa sala de bate papo. Sim! Um relacionamento que durou mais do que uma semana em uma sala de bate papo. Obviamente não lembro dos “nicknames”, mas começamos a teclar e depois de um tempo fomos pro MSN (que antigo! Rs). Mais umas semanas se falando por chat e marcamos um encontro num shopping.

Esses encontros sempre eram tensos. Com poucos recursos tecnológicos (as câmeras digitais ainda não eram moda), a gente nunca tinha certeza se aquela foto realmente correspondia àquela pessoa. Mas nos encontramos e ocorreu tudo bem, apesar da tensão inicial. Desse encontro, surgiram outros que culminaram num pedido de namoro entre um chopp e outro num barzinho.

Nisso passamos um ano tranquilo. Namoro homossexual em que as famílias não sabem é um pouco mais complicado, mas nada que uma boa logística não ajude. Apesar da tranquilidade, nesse final do primeiro ano houve uma relação fora do relacionamento de minha parte. Algo que me arrependo até hoje. Após um mês bem difícil, reatamos nossos votos de um relacionamento estável.

Depois de alguns anos, você vê sua relação de uma forma mais tranquila. Não há mais pressões internas e externas. Parece que você fica imune às inseguranças da vida e tem como seguro seu relacionamento. De tão seguro, achava que estava tudo tranquilo. Eu morava com meus pais, ele com sua mãe. Nos víamos todos os finais de semana. Mas, para ele, isso era pouco. Tão pouco que há três anos atrás (com 6 anos de namoro), ele deu um ultimato: “Ou vamos morar juntos ou a gente se separa. Não vou namorar pra sempre”.

Justamente eu que demorei anos pra ser recompensado financeiramente na minha profissão, e agora que estou ganhando bem, que posso juntar meu dinheiro, ele fala pra gente gastar tudo o que temos com aluguel, condomínio e iptu? Era assim mesmo que eu pensava. Até porque sempre tive um bom relacionamento com meus pais e não via a necessidade de sair de casa. Mas, aproveitando o embalo de um amigo que estava finalizando um contrato de aluguel, fizemos uma proposta de dividirmos um ape por nós três: eu, ele e o nosso amigo.

E em um mês já estávamos todos morando juntos. Foi uma experiência muito legal, mas logo percebi que os 6 anos de namoro foi pouco pra gente. A gente só se via aos finais de semana. De repente, estávamos dormindo juntos todos os dias. E isso foi se tornando bem conflituoso. Passamos os primeiros 6 meses em muitos atritos. Duas pessoas que se gostavam, mas que vinham de casas diferentes, de expectativas diferentes, de repente estavam juntos na mesma casa e com mais uma pessoa. Imagina a situação!

Mas depois desses 6 meses, acabamos entrando no ritmo de um casal. Conversando com nossos amigos heteros e gays, parece que é algo bem comum esses meses de “estranhamento” até as coisas se organizarem!

Quando percebemos, depois desse período, estávamos praticamente casados, vivendo bem, mas tínhamos a companhia de nosso amigo no apartamento. Daí nos demos conta de que a gente não precisava ter pego esse ape junto com ele (medo nosso de não conseguir pagar as contas). Então, ao final do contrato, acabei comprando um apartamento no qual estamos morando atualmente. E digo, morar só nós dois é ótimo! Não me arrependo nenhum pouco de ter saído da casa dos meus pais pra viver esse relacionamento. Costumo falar que um relacionamento dá certo quando a balança está no meio, ou seja, equilibrada. Eu sou capricorniano; pé no chão, razão na frente, obstinado, corajoso, realista, organizado. Já ele é peixes; pé nas nuvens, emoção na frente, intuitivo, cauteloso, sonhador, desorganizado. Dai peixes consegue tirar capricórnio dessa realidade crua e difícil e o leva a pensar que a vida pode ser mais leve. Assim como capricórnio leva peixes a lembrar que é necessário por os pés na realidade e que a vida pode ser mais concreta e real…e assim vamos levando. Não há segredos. O que existe é se permitir a viver o que a vide lhe oferece!”